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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Era uma vez... Uma jabulane.


Foi bom enquanto durou, e eu não sei por que forças misteriosas ontem à noite minha antena perdeu o sinal de todos os canais que transmitiriam o jogo, o que me fez ficar totalmente out de Brasil e Holanda hoje. Acompanhei a saga pelo som dos fogos e vulvuzelas, precisamente fui acordada por eles. E agora ao ouvir um ensurdecedor barulho pensei ser o Brasil empatando almenos. Mas eram fogos de extravaso, e não de folia. Meu pai assistia uma reportagem que fazia a cobertura da galera assistindo o jogo em Copa, e daí corri pra ver o que estavam dizendo. E vi uma cena que não hei de esquecer. O Repórter pergunta ao torcedor transtornado, se debulhando em lágrimas de desespero o que ele tinha dizer sobre a derrota na copa. Ele puxa a camisa do pobre do repórter e grita: DUNGAAAAA CÊ TÁ FU-DI-DO! O repórter desconcertou-se todo, perdeu a compostura, bem dizer quis largar o microfone e sair correndo dali... 

Pois é, depois de rir um bocado desse episódio, pensei que se o Dunga for minimamente sensato ele aproveitaria que está na África, pra fazer uns safáris, passear com  leões e elefantes, onde estará mais em segurança que por aqui. Onde foi aberta a temporada de caça, adivinhem só de que... do próprio, Dunga. Eu particularmente não o trucido, todo técnico é “o cara” quando time ganha e quando perde leva fama de “o merda”. Esses dias numa entrevista Ronaldo Fenômeno disse o seguinte:” Quando faço gol, sou bonito e magro e quando não, sou feio e gordo” e é isso aí mesmo. O povo fala, se indigna, leva a sério, o Brasil seria outro se eles levassem suas vidas tão a sério quanto levam o futebol. Mas o fato é que convenhamos, foi bem melhor perder para Holanda, do que correr o risco de perder pra Argentina e ter o desprazer de ver Maradona das candongas como veio ao mundo. Em suma, ainda temos muito o que festejar.


* Me desculpem os palavrões, mas tem alguns momentos que nenhuma palavra os pode substituir. Ou seja, só o palavrão cabe.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

"Garciamarquezco"



Lá do alto os cães entoavam uma sinfonia de lamento, mas sabe-se lá se era de lamento mesmo. A véia se fora e com ela toda amargura que num cabia no mundo. Em vida só me ensinou que temos que tomar muito cuidado com o que podemos nos tornar cada coisa que faz arrepiar o mais rebelde dos pentelhos. Mas em morte, me levou àquele lugar melancólico, poético, que me despertou na mesma medida solidão e solidez . E me pus as desbravar feito criança seus mistérios. Fiz o caminho que me levaria até os cães, li lápides curiosíssimas outras nem tanto, e seria de esperar que lembrasse alguma para dizer a vocês, mas não, não lembro. 

 O vento soprava um assobio tenebroso e levantava uma névoa de barro vermelho que fazia arder às vistas. Lá embaixo acontecia o enterro da vó, e tava lá toda família, família essa que eu pouco ou nunca vi na minha vida. Evém Maria da dita que nunca ouvir dizer, e o seu fulano padrinho do pai, padrinho bem ausente diga-se de passagem, pois sou filha do meu pai há vinte três anos e nunca tinha ouvido falar do tal. Enfim, aquele bando de estranhos que puseram em nossa frente e a gente teve de se acostumar. Por essas e outras preferi ver de longe. 

Seu coveiro tirou  o chapéu e me fitou, perguntou se eu estava passeando e fiz que sim com a cabeça, perguntei quem cuidavam dos cães e ele me disse que eles se criavam, que  tinha muita gente pra cuidar deles ali, disse rindo e foi então que me esgueirando por entre as covas me arredei dali. Descendo com o vento nas ventas, vento que por ora me levou as mazelas da cabeça e me trouxe o pensamento. Que daqui algum tempo, eu, como a vó, também serei vento. E isso, meus caros não é um lamento.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Um homem de fé

Nunca antes alguém me falou de Deus com tanta sinceridade, tão pueril. Um Deus que não é cristão, protestante ou judeu. Um que não tem parte com religião, mas com quem nele crê. E eu que não tenho Deus, por que ele nunca me fez muito sentido, fui gostar de você. Que mais crente não pode haver. Se eu tivesse um Deus, era um assim que eu queria pra mim. Um Deus que é senhor e é criança. Senhor quando por vezes você precisa de ajuda, mas precisa dar uma forcinha pra ser ajudado por ele. E criança quando lhe joga umas "batatas quentes " nas mãos e insiste em dizer que dê conta delas. Você as chama de missões, que nem sempre te fazem mais feliz, mas sempre mais sabido. Um Deus brincalhão... Que é humano e divino. E mesmo sendo quem sou, a sua fé e o fato dela ser tão grande me emociona, me ensina. O seu Deus, mantenha-o vivo, pois ele só faz fazer bem a você. E é por crer que ele existe que ele lhe assiste, e nisso eu creio.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Vôo de folia


Vejam vocês que pelo tempo que num posto nada aqui, já se decretava esse blog como abandonado, mas por me ter como autora, não podia ser muito diferente disso, cheio de idas e vindas, de intemperanças, de minhas inspirações e desesperações, e haja! Mas tudo mudou, aliás, nada mudou. E por eu ser esse diacho de ser que sou “arresolvi” continuar. Os causos nunca param, por que eu haveria de parar, ora essa. “Vamo” mesmo é largar mão e deixar de “cê” besta. Foi num vôo que tudo se deu.

Num belo bloco de “carnavá”, com belos cabras, homens pra mais de metro, pra encher nossos olhos... É pena que só enchesse os olhos. Passavam com suas “subaqueiras” a mostra, exalando um odor da peste, até pediam licença, mas num precisava, era quase por reflexo que davam passagem. Abriam verdadeiras alas, e era bonito de ver aquilo tudo... Ah que beleza. Num dado momento me engracei por um sujeito, que também era desses de olhar pro alto e perder de vista, mas não fedia, quero dizer, àquela hora ainda não. Achei curioso, por que vocês não viram o estado de calamidade que eu me encontrava. Num perdia pros cabras não. Nessas circunstancias alguém se engraçar por você, te desperta até certa ternura. Eu tinha dentro de mim o sol, era minha exata sensação, e achava isso tão lúdico. Parecia que tinha engolido o sol. E dá-lhe marchinhas mil e no meio d’uma...

Lá ra iá la ra iá la ia la ia hei!

E nesse hei, fui arribada numa só vez. Pro alto, bem alto E voei, literalmente. Fui levada pela multidão. O sujeito que me jogou pro alto, achou que eu iria fazer um escândalo pra me porem no chão. Hum tolinho, mal sabia ele, que lá do alto, o som era mais limpo, era só eu e o céu. Eu gritava: Eu tô voaaaando! Feito uma louca e logo desatava a gargalhar sozinha. E lá embaixo aquela gente toda. Puseram-me no chão muito a contragosto, mas nunca mais voltei daquele vôo, voltei uma outra, bem “miôrada”. Depois voei novamente, e só acordei no hospital, o sol que eu tinha engolido, tinha um termo técnico, mais conhecido por en-so-la-ção.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Ianomâmi terapeuta - LoUcUrA III


Noite fria pra “daná”. E o filme que ia começar era surpresa. Então não tínhamos idéia do que podíamos esperar dele. Não tenho a pretensão de criticar a Maratona Odeon, (um evento que acontece na primeira sexta feira do mês no cinema Odeon, começa por volta da meia noite e termina de manhãzinha, com um lindo café da manhã servido, são apresentados ao longo da noite três filmes com intervalos entre as exibições) mas vez por outra, ela se torna uma cilada. Tu tens que ser um cabra bem atento pra num cair nessas presepadas. Vê-se que não sou. E nessa longa espera me deparo com um tipo Apache, Ianomâmi, Xavante... E pagé, daqueles bem caricatos, mas o “home” era bem afeiçoado, forte sabe? Demorou pra eu perceber que era um morador de rua. Primeiro ele me disse que eu era muito bonita, agradeci. Depois perguntou se eu me via através dele. Disse a ele que sim. Ele disparou a rir, e a dizer que eu era muito inteligente. Em seguida, baixou o olhar e fixou-o nas pernas da minha amiga, elogiou passando a mão no queixo como quem vislumbrasse muita coisa naquelas pernas. De repente, não mais que de repente, olhou pra mim e disse que isso era pra eu aprender que eu não sou o centro do mundo. O filme já ia começar. E disse isso a ele. Que logo ficou transtornado, ofendidíssimo, como quem acaba de ser ultrajado. – Pensa que não percebi seu artifício? Eu perguntei de que artifício ele falava. E ele prosseguiu dizendo que se eu não queria sua companhia, sua sabedoria que o enxotasse dali. E continuou: - Mas não me trate como ignorante. Ignorante, ele disse. Começou a se auto-enxotar aos berros, às três da manhã em plena Cinelândia. Afastou-se gargalhando. Assisti ao filme, uma comédia pavorosa, tal de Rumba. O dia raiou, e raiou com ele um pensamento de que aquele acontecimento, aquele encontro, tinha muito mais a me dizer do que os três filmes assistidos naquela noite. Por um instante me ocorreu que talvez a louca seja eu.



terça-feira, 14 de julho de 2009

LoUcUrA II

Tá lá Marianinha, numa manhã ensolarada, esperando o ônibus sair. Eis que se aproxima um sujeitinho, cá pra nós, muito mal encarado com uma cabeça esburacada, parecia que tinha se metido a besta de cortar o cabelo e pelo visto não foi bem sucedido, "tadinho". Tinha olhos bem esbugalhados, que crê em Deus pai! Parecia inté “sombração”. Olhava fixamente pra mim. Eu achava que tinha um sorvete nas mãos até constatar que ele estava no chão. Olhando pro chão... Ouvi:

- Oh menina, eu tô com muito medo.
-Eu também. Aliás, tô morrendo de medo, meu filho. E não era mentira, eu tava em pânico, com aquele sujeito me olhando. Entrei no ônibus. Achei que o sufoco já havia passado. E passou? Passou não, meu bem. O dito veio meio recatado e sentou ali do meu lado. Ai puta que o pariu quanto mais eu rezo mais maluco me aparece.

-Você pode segurar minha mão? Por favor...

A princípio pensei que de maluco ele não tinha nada, mas um homem daquele tamanho, robusto que só, passar por um papelão desses pra dar em cima de alguém seria uma vergonha.

- Dá’qui a mão, vai. Acabei me apiedando. Que presepada... Ele até que se aquietou um pouco depois de darmos as mãos. Mas continuava suando mais que vaca indo pro abatedouro. Que mais ele podia me pedir?
Perguntei onde ele ia saltar e ele me disse que no Hospital dos servidores. Ia ver um tal doutor Ívano.

-Vou ver o doutor, ele está lá hoje.

-Faz muito bem. Bom saber, vai descer antes de mim. Logo chegou o Hospital dos Servidores. Aí me pediu pra levá-lo até a porta. Ora, se já confessei meu medo a este homem, dei as mão a ele durante todo o percurso e lhe prestei palavras de consolo por que não leva-lo a porta?

- Vamos lá. O homem não soltava a mão. O motorista queria fechar as portas, eu não sabia se descia ou se cometia um ato bárbaro e empurrava aquele homem escadas abaixo. Ele perguntou se eu ainda estava com medo. Eu disse que agora ainda mais que antes. Então me disse que não podia largar minha mão. Meio comovida, mas ainda tendo de fazê-lo descer. Eu disse que, aliás, todo mundo ali estava morrendo de medo. Ele olhou sério para as pessoas e me disse que não parecia. Disse a ele que elas fingem muito bem.


-Posso largar sua mão? Me perguntou.

-Pode, eu também vou fingir que passou meu medo.
Ele desceu e ficou parado me olhando pela porta, sorrindo com um sorriso que só os loucos têm. Que parece entender tudo e nada ao mesmo tempo.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Malhuquin, malhuquin

Cês puderam notar que houve um período de recesso, e para essa nova fase o “Se avexe não” recebeu um trato e está lustroso toda vida. Pra comemorar o retorno teremos a novidade da série "Malhucos". Pequenos contos que darão voz a tantos loucos que já cruzaram o meu caminho. Costumam dizer que tenho um imã e realmente eles não param de chegar a minha vida. A loucura está presente. Espero que se divirtam.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Lotação I

Três horas da tarde. Eh Rio de janeiro bonito da gota. Mas visto daqui de onde vejo todo dia, o Rio é bonito, mas péra lá mermão, tem gente feia pra cacete. É central do Brasil. Acabo de ser espezinhada pelo mendigo no Campo do Santana. Mendigo é tudo revoltado, não aceita não como resposta. E porra, só tenho um cigarro, vou dar? Vou nada. A vida é dura meu filho, e você já devia saber disso. Mal sabia o que me esperava.

Chegamos na central, eu mais Camila, e essa não perde um trem, enquanto eu perco todos, ela nenhum. Fala feito uma gralha descompassada. Tenho por ela um carinho imenso, mas sofre de um mal terrível a coitadinha, chatisse. E quanta chateação ela sabe causar e bem sabe disso. Mas depois de lembrar o mendigo da condição dele, ninguém poderia deixar de me lembrar qual era a minha. Enfim anunciou a plataforma do bendito Santa Cruz. Num mulão só, veio aquele povo feio, manco, com as perebas de fora, e tudo na mesma direção.

E Camila, aquela mesmo que não perde um trem, grita:

- Corre!

Muito contrariada admito que corri, corri horrores, sebo nas canelas, pernas pra que te quero. Camila só gritava lá da frente. No meio das perebas, tava ela. A bichinha corre pra diacho. De repente caiu meu casaco. E eu besta, voltei pra pegar, ficou l’atrás.

Alguém me lembra da minha condição. Um homem de cecê que mais fedorento num pode existir, passa na minha frente. Ele, e o cecê que serviu mais pra esfregar a realidade nas minhas fuças. Nua, crua e fedida. O danado se vira ainda correndo e me diz em alto e bom som:


- Ah se ferrou! Vai ter que voltaaaar!


Parei de correr arrasada, como quem perde lugar no colégio, pra piolhenta da turma.

Mas Camila se adiantou é claro, aquela ali, não passa aperto, e acenava pra mim na porta do último vagão.

- Mari, guardei lugar, vem vem!!!

Lá pelas tantas, a vida me sorriu, e eu a ela.