Mostrando postagens com marcador o dia em que cria asas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador o dia em que cria asas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Diálogos mortíferos


 A vida é a quase-morte.  Morte que acompanha meus passos, desde a minha nascença. Que em cada vão momento, firma sua presença.

“Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida’”. Já dizia Raul em Canto para minha morte, uma de minhas músicas prediletas.

Palavras que fazem um sentido danado quando a gente percebe que vive a vida a experimentar mortes, morrendo e nascendo vez após vez. Como que provando doses homeopáticas da morte, que estão na poesia, no “fim”, nos tantos fins que temos ao longo da vida. O Fernando Pessoa entra nessa conversa categórico como sempre, e desabafa:

“Aborreço-me da possibilidade
De vida eterna; o tédio
De viver sempre deve ser imenso.
Talvez o infinito seja isso...
Já o tédio de o pensar é horroroso”.
                                                        (Poemas dramáticos/Primeiro Fausto/Primeiro tema)

Viver para sempre é morrer e nascer eternamente, e convenhamos que  seria uma maçada. Eu preguiçosa que sou em número, gênero e grau só faria deixar tudo pro dia seguinte, sequer sairia do lugar. E pelo rumo da prosa chamo o Rubem Alves que considera a morte uma conselheira, que nasce conosco, se mantem a nossa esquerda, por que esquerda e não direita ou acima de nós eu não sei, mas enfim, e nos olha a todo instante até que um dia, quando bem quer, nos toca. E tudo o que chamamos de vida, é o intervalo entre o dia que nascemos e o dia do seu toque. Aquela que está sempre presente para nos lembrar que só O presente é o que há, e tudo mais é invenção.

...“Vem, mas demore a chegar eu te detesto e amo morte ”... Raul Seixas, ainda em Canto para minha morte, cismei com essa.

Viver consciente da morte,  é entender que a vida pede ida. Pra terminar deixo vocês com O Álvaro de Campos que pôs reticência no nosso diálogo.

...“Não, cansaço não é...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta –
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angustia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê? ...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola de outro, e voz dela!)

Porque ouço, veja
Confesso: É cansaço!” (Campos, Álvaro de; Ficções do interlúdio).






segunda-feira, 28 de junho de 2010

"Garciamarquezco"



Lá do alto os cães entoavam uma sinfonia de lamento, mas sabe-se lá se era de lamento mesmo. A véia se fora e com ela toda amargura que num cabia no mundo. Em vida só me ensinou que temos que tomar muito cuidado com o que podemos nos tornar cada coisa que faz arrepiar o mais rebelde dos pentelhos. Mas em morte, me levou àquele lugar melancólico, poético, que me despertou na mesma medida solidão e solidez . E me pus as desbravar feito criança seus mistérios. Fiz o caminho que me levaria até os cães, li lápides curiosíssimas outras nem tanto, e seria de esperar que lembrasse alguma para dizer a vocês, mas não, não lembro. 

 O vento soprava um assobio tenebroso e levantava uma névoa de barro vermelho que fazia arder às vistas. Lá embaixo acontecia o enterro da vó, e tava lá toda família, família essa que eu pouco ou nunca vi na minha vida. Evém Maria da dita que nunca ouvir dizer, e o seu fulano padrinho do pai, padrinho bem ausente diga-se de passagem, pois sou filha do meu pai há vinte três anos e nunca tinha ouvido falar do tal. Enfim, aquele bando de estranhos que puseram em nossa frente e a gente teve de se acostumar. Por essas e outras preferi ver de longe. 

Seu coveiro tirou  o chapéu e me fitou, perguntou se eu estava passeando e fiz que sim com a cabeça, perguntei quem cuidavam dos cães e ele me disse que eles se criavam, que  tinha muita gente pra cuidar deles ali, disse rindo e foi então que me esgueirando por entre as covas me arredei dali. Descendo com o vento nas ventas, vento que por ora me levou as mazelas da cabeça e me trouxe o pensamento. Que daqui algum tempo, eu, como a vó, também serei vento. E isso, meus caros não é um lamento.

sábado, 17 de abril de 2010

Evém toró


"Seu boiadeiro por aqui choveu
Seu boiadeiro por aqui choveu
Choveu que amarrotou
Foi tanta água que meu boi nadou".

Canção: Chover (Ou invocação para um dia líquido).
Lirinha e Clayton Barros


Era fim de tarde, a chuva já começava a se exibir. Fiz uma proeza pra pegar um ônibus, me lancei no meio de carros, dei uma de louca pra sair da chuva. E por muito pouco não fico na chuva pra sempre. Mal imaginava a jornada que seria voltar pra casa. Nossa hora de rush e consegui ir sentada valeu a pena a sandice, pensei. Porém, logo a chuva apertou e percebi que sentei na janela depredada, falando as claras, minha janela não tinha vidro. “Dispôis” dessa triste constatação deu de cair uma chuvarada que parecia nunca que nunca mais ia parar. A chuva caia sobre todos e meu sono caiu sobre mim, um sono pesado que só vendo. Parece até que eu vinha de uma obra. Toda molhada, mas dormindo profundo.

Quando acordei rolava um burburinho. E Fui logo tratando de me inteirar do que tava acontecendo. Perguntei a um senhor que estava próximo, mas pra quê eu fiz isso? O “home” era chato toda vida, e pior, nos agourava a todo o momento. - Qualquer acidente nós seremos indenizados, estamos em segurança. Ninguém precisa se preocupar. Na hora não me fazia muito sentido por que ele estava tão certo dessa segurança. Mas ao longo das quatro horas, ele teve tempo de sobra pra se fazer entender. O espertinho já ganhou várias causas com empresas de transportes públicos, é quase um “caça-causa”. Qualquer coisa é motivo pra uma indenização.

Do meu lado, uma menina jeitosinha, só fazia reclamar da aula que tinha perdido, e aporrinhou o namorado até não poder mais. - Amor, quem te ama hein? Quem tá levando bala de coco pra você hein bem?Vou passar aí amanhã de manhã tá amor? Cê ta me ouvindo bem? Então fala alguma coisa meu benzinho?

Nossa que maçada foi aturar aquela menina. Mas olhando pela janela, que não era uma janela, a situação estava bem mais tensa. No fim das quatro horas ali, todos já estávamos familiarizados, até com o coroa caça-causa. Sabíamos da vida de todo mundo, onde morava, onde estava indo, onde trabalhava. Um sujeito se meteu a besta de reclamar que a juíza o fez pagar uma cesta básica para uma instituição carente, injuriadíssimo. Tive que perguntar a razão. E o dito veio com um papo atravessado de que a mulher partiu pra cima dele... Meio que se justificando... Criou-se uma comoção, a galera começou a dar palpite, o homem não sei se por vergonha ou não, desceu no ponto seguinte, com o rabo entre as pernas, e as pernas debaixo d’água.

Não fosse por aquele caos, as pessoas sentariam e desceriam, como estranhas como são todos os dias. Se bem que não sei se eram mais estranhas antes de conhecê-las ou depois.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Vôo de folia


Vejam vocês que pelo tempo que num posto nada aqui, já se decretava esse blog como abandonado, mas por me ter como autora, não podia ser muito diferente disso, cheio de idas e vindas, de intemperanças, de minhas inspirações e desesperações, e haja! Mas tudo mudou, aliás, nada mudou. E por eu ser esse diacho de ser que sou “arresolvi” continuar. Os causos nunca param, por que eu haveria de parar, ora essa. “Vamo” mesmo é largar mão e deixar de “cê” besta. Foi num vôo que tudo se deu.

Num belo bloco de “carnavá”, com belos cabras, homens pra mais de metro, pra encher nossos olhos... É pena que só enchesse os olhos. Passavam com suas “subaqueiras” a mostra, exalando um odor da peste, até pediam licença, mas num precisava, era quase por reflexo que davam passagem. Abriam verdadeiras alas, e era bonito de ver aquilo tudo... Ah que beleza. Num dado momento me engracei por um sujeito, que também era desses de olhar pro alto e perder de vista, mas não fedia, quero dizer, àquela hora ainda não. Achei curioso, por que vocês não viram o estado de calamidade que eu me encontrava. Num perdia pros cabras não. Nessas circunstancias alguém se engraçar por você, te desperta até certa ternura. Eu tinha dentro de mim o sol, era minha exata sensação, e achava isso tão lúdico. Parecia que tinha engolido o sol. E dá-lhe marchinhas mil e no meio d’uma...

Lá ra iá la ra iá la ia la ia hei!

E nesse hei, fui arribada numa só vez. Pro alto, bem alto E voei, literalmente. Fui levada pela multidão. O sujeito que me jogou pro alto, achou que eu iria fazer um escândalo pra me porem no chão. Hum tolinho, mal sabia ele, que lá do alto, o som era mais limpo, era só eu e o céu. Eu gritava: Eu tô voaaaando! Feito uma louca e logo desatava a gargalhar sozinha. E lá embaixo aquela gente toda. Puseram-me no chão muito a contragosto, mas nunca mais voltei daquele vôo, voltei uma outra, bem “miôrada”. Depois voei novamente, e só acordei no hospital, o sol que eu tinha engolido, tinha um termo técnico, mais conhecido por en-so-la-ção.

terça-feira, 14 de julho de 2009

LoUcUrA II

Tá lá Marianinha, numa manhã ensolarada, esperando o ônibus sair. Eis que se aproxima um sujeitinho, cá pra nós, muito mal encarado com uma cabeça esburacada, parecia que tinha se metido a besta de cortar o cabelo e pelo visto não foi bem sucedido, "tadinho". Tinha olhos bem esbugalhados, que crê em Deus pai! Parecia inté “sombração”. Olhava fixamente pra mim. Eu achava que tinha um sorvete nas mãos até constatar que ele estava no chão. Olhando pro chão... Ouvi:

- Oh menina, eu tô com muito medo.
-Eu também. Aliás, tô morrendo de medo, meu filho. E não era mentira, eu tava em pânico, com aquele sujeito me olhando. Entrei no ônibus. Achei que o sufoco já havia passado. E passou? Passou não, meu bem. O dito veio meio recatado e sentou ali do meu lado. Ai puta que o pariu quanto mais eu rezo mais maluco me aparece.

-Você pode segurar minha mão? Por favor...

A princípio pensei que de maluco ele não tinha nada, mas um homem daquele tamanho, robusto que só, passar por um papelão desses pra dar em cima de alguém seria uma vergonha.

- Dá’qui a mão, vai. Acabei me apiedando. Que presepada... Ele até que se aquietou um pouco depois de darmos as mãos. Mas continuava suando mais que vaca indo pro abatedouro. Que mais ele podia me pedir?
Perguntei onde ele ia saltar e ele me disse que no Hospital dos servidores. Ia ver um tal doutor Ívano.

-Vou ver o doutor, ele está lá hoje.

-Faz muito bem. Bom saber, vai descer antes de mim. Logo chegou o Hospital dos Servidores. Aí me pediu pra levá-lo até a porta. Ora, se já confessei meu medo a este homem, dei as mão a ele durante todo o percurso e lhe prestei palavras de consolo por que não leva-lo a porta?

- Vamos lá. O homem não soltava a mão. O motorista queria fechar as portas, eu não sabia se descia ou se cometia um ato bárbaro e empurrava aquele homem escadas abaixo. Ele perguntou se eu ainda estava com medo. Eu disse que agora ainda mais que antes. Então me disse que não podia largar minha mão. Meio comovida, mas ainda tendo de fazê-lo descer. Eu disse que, aliás, todo mundo ali estava morrendo de medo. Ele olhou sério para as pessoas e me disse que não parecia. Disse a ele que elas fingem muito bem.


-Posso largar sua mão? Me perguntou.

-Pode, eu também vou fingir que passou meu medo.
Ele desceu e ficou parado me olhando pela porta, sorrindo com um sorriso que só os loucos têm. Que parece entender tudo e nada ao mesmo tempo.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

LoUcUrA I

Se acalma muié, arrê! De que adianta ficar se autoaperreando agora? Ai, ela tá olhando pra mim. Das duas uma, ou gostou demais ou desgostou demais também. Será que ela viu minha mão tremendo? Deixa eu segurar a bolsa pra disfarçar. Pronto, maravilha!
- Gente, peço a vocês que deixem suas bolsas sobre aquela mesa, por gentileza, pra todo mundo ficar mais a vontade.
Ah eu fico bem mais a vontade com a bolsa aqui comigo, me deixa ficar com ela, vai? Hummm. Mas com essa aí, não tem conversa. Essa galera de Rh, oh gentinha mau caráter, vou te dizer. As mulheres então, nooosa senhora, têm aqueles sorrisinhos “In” sabe “comé” que é? De gente bacana, descolada, jovial, capa de caderno Tilibra. Claro que digo isso pra me defender, desse papel de besta que tô fazendo aqui. Coisa mais baixo astral é pra mim é dinâmica de grupo. Aflição pouca é bobagem.

Até nos apresentarmos estava tudo muito bem, tudo muito bom... aí tiveram a brilhante idéia de contarmos a história dos nossos nomes, o que foi de péssimo gosto, afinal num momento de extrema tensão, você ter que pensar em questões relativas à sua origem pode vir à tona coisas que você nem sabe lidar naquele momento, como aconteceu com um sujeito, pobre homem, que desatou a chorar. Tudo culpa do pessoal do RH, já devia está tudo mancomunado. São ruinzinhos, prestam não.

Mas teve o auge da dinâmica, e não foi o cabra chorando feito uma cabritinha não. Eis que surge uma tal de Bebel, uma perua de marca maior, que atendeu o celular dentro da sala, como se não bastasse, falou no rádio. Ria feito uma louca e na hora de se apresentar mandou meia dúzia de frases de auto-ajuda fajuta. Coisa que impressionou muitíssimo a moçinha do RH, que não conseguiu disfarçar a identificação com aquela pieguice toda.

E afinal quem foi pra "academia"? Ela, senhorita Bebel. Como não? A bonitinha então pediu a todas nós que aguardássemos em casa. Ah que raio de critérios são esses para aprovar alguém, não que a oferta fosse tentadora, trabalho nunca é muito tentador, mas era uma questão de justiça apenas, e sem pensar muito voei por cima daquela mesa e arranhei toda cara dela. De repente as outras meninas rasgavam o que havia em cima da mesa dela, todas fomos tomadas pelo ódio que todos temos adormecido dentro de nós. Jogamos os papéis pela janela, que saiam voando pelo centro da cidade. Subimos em cima das mesas e gritamos:

- ah ah uh uh , é marmelada!
- ah ah uh uh , é marmelada!

Chamaram os seguranças, e a sala foi invadida por uns homens robustos. Que dava gosto de ver. Fiquei tão satisfeita que pulei em um deles pelas costas feito uma "macaca anfetaminada". Saímos muito a contragosto e gritando horrores. Quando o elevador se abriu nos soltamos, perguntei pela minha bolsa, me devolveram, então me recompus, retomei minha serenidade. Era outra... e melhor.

"Nunca aos loucos, um falso engano seu condiz"...
Fernando Pessoa


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Adeus vida severina

Minha gente vou contar a vocês, que há seis meses que eu tô trabalhando e pode até não ser nada de muito sofrido tenho de reconhecer, mas é trabalho. Isso é o que me dói. Vocação mesmo eu tenho pra vagabundo. Acordar com o sol na cara, dormir ao amanhecer, tomar café sem ter a menor idéia do que será feito do resto do dia. Eita vidão, oxa! Esse papinho brega toda vida de que o trabalho enobrece o homem é balela. Uma mentirinha pesada que infelizmente colou. O que enobrece um homem é não precisar trabalhar, oras. Ah, como eu seria feliz, toda uma vida de prazer e só prazer e nada além de prazer.

Minha patroa é uma sequelada no sentido mais literal da palavra, seqüela braba de pó. Ela tem três tiques bãos demais da conta pra matar qualquer um de rir, menos eu, que não posso rir. Levanta as sobrancelhas fatalíssima, joga os cabelos e levanta as calças. Faz tudo isso em seqüência, e quanto mais nervosa, mais rápida a seqüência. A mulher é uma neurótica de marca maior. Quando tem reunião, ela é o próprio “Roberto Justus”.

– Cala boca infeliz!



– Desculpa é para incompetentes!

Ela virou para mim o símbolo do terror e do humor. Uma mulherzinha muito afetada, tadinha. E que me fez repensar toda a minha vida. Ela é tudo que eu nunca quero ser. Leva algumas palavras muito a sério, sabe? Tem uma então que não sai da boca dela, a tal da res-pon-sa-bi-li-da-de. Uma palavra carregada pra ficar se dizendo toda hora. A pobrezinha tem cara de que nunca conheceu a se-re-ni-da-de. Que acho tão sonora quanto significativa. É a serena-idade.

Dias desses levei um esporro dela, como levo toda semana, e a “Justus” se pôs a falar primeiro com meu amigo Jorge Palmeira, que é quase um Marcos Palmeira, diga-se de passagem, disse a ele que como pode um mês inteiro de atrasos absurdos, logo ele que sempre foi tão preocupado com o trabalho, com as suas responsabilidades e a qualidade do que faz. O pobre ficou arrasado, e eu olhando pra ela com um sorriso sínico esperando a minha vez. Ao terminar de falar com Jorge, se calou. Não ousou dizer o mesmo pra mim, e quando me perguntou quais eram os meus motivos para me atrasar tanto, eu disse que foi uma fatalidade, ela me mostrou todos os atrasos e eu confirmei com cara mais lavada.

– Houveram várias fatalidades esse mês, você nem imagina.

E fui me embora, pois aquela mulher me alimenta as idéias mais perversas.

Mas a gota d água foi uma tal despedida que rolou no “bola de fogo”, uma orgia no meio da rua, as bichas mais loucas dando shows. E eu assistindo o momento em que tudo deixou de fazer sentido. Aquele momento em que se constata que já é hora de partir. Levantar vôo. Saboreei com fineza aquela noite, e sorria sem parar por saber que não os veria mais. A despedida era só minha e de mais ninguém.

Decidi que não iria trabalhar naquele lugar NUNCA MAIS. E é assim que tem sido. Faz uma semana e meia que não entro naquele recinto e que não carrego no rosto os ares de labuta que o trabalho deixa. A vida tem sido, puro alto astral, gente bacana, altos almoços, jantares, conversa fora. Dias de sorvete, pracinha, leitura, é tão bom ter tempo. Estou tão deslumbrada, já tinha esquecido o que era poder escrever para o blog. Ter tempo, na atual conjuntura é um luxo. Um trabalho que toma todo o meu tempo, não me vale de nada.

Alias, nessas leituras li uma coisinha que me fez muito sentido, um sujeitinho de nome Henry Miller disse em um de seus livros, que quando ele foi oferecer livros a um cliente em potencial, o homem perguntou a ele por que ele fazia isso. E ele sem hesitar disse que para sobreviver. O homem em seguida disse que isso não era argumento. Que para sobreviver você não precisa fazer isso, há varias outras formas como pedir ou trapacear. São opções. O que não vale é o sacrifício, deixe ele pra os cristãos. Digam aos outros que precisam trabalhar para sobreviver, mas não acreditem de verdade nisso. É lorota. Você não precisa. É claro que se há de sofrer algumas represálias da sociedade. Mas é bobagem. Não que eu esteja pensando em me tornar pedinte ou uma gaiata, mas é preciso ver que há outras opções e é uma questão de estar disposto a elas ou não.

Sei que desse momento, herdei uma experiência única que não se pode ter medo de perder nada. Que tudo isso é mero discurso. Conquistar “o pão de cada dia” com suor do rosto é coisa muito chata, bacana mesmo é conquistar “o pão de cada dia”, sem sacrificar sua felicidade para isso.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Passa nuvem negra

“Ela vem toda de rosa, toda molhada e (des) penteada, que maravilha, que coisa linda” e, eis uma poça. Aqui chove de não ter jeito. Ela repara bem, vê se vai dar pé, arrisca e salta do salto, foi bonito aquilo. O salto da “madama” envergou, ela se lançou majestosamente naquela poça traiçoeira. Que parecia só estar aguardando alguém passar a perna por ela pra derrubar um. Tombo teatral aquele, rapaz. Eu só-rindo num canto da boca. No outro havia muita seriedade. Tenho nesses risos imensa satisfação.
Na porta do meu trabalho, vejo um picadeiro. Chega palhaço de tudo que é jeito, fazem as mais variadas acrobacias, umas mais elaboradas, outras nem tanto. A loira é uma palhaça ousada. Eles chegam encolhidos, segurando guardas chuvas, passando por entre as poças, que são muitas e grandes. Além do infame objeto, carregam livros, bolsas e cabelos pranchados. São eles os mesmos cariocas descolados que andam por aí nos dias ensolarados, com peito cabeludo a mostra, cabelos ao vento, havaianas nos pés, altos decotes, cervejas nos bares, calores lascivos e evém uma chuva dessas de não ter direção, e os deixam desbaratados, sem saber pra onde ir... É difícil acreditar, mas são eles mesmos.
Toda uma comoção. Quem chega reclama, quem vai também. Segura guarda chuva, abre a bolsa, pega a sacolinha pra guardar o famigerado, cai chave, cai gloss, cai coisa que ninguém precisava saber. E fica tudo limpo, tudo às claras. A chuva que tudo penetra, e lava, deve de vir pra levar toda hipocrisia que nossos dias ensolarados encobrem, com sua luz branca, tão clarividente que cega. Quando ela chega por aqui sobe um cheiro fétido, pútrido de revolver todas as vísceras. E nós sabemos bem da onde vem. De nós, oras.
Temos de reconhecer que não sabemos lidar com dias de chuva. A começar por acharmos que é possível estar na chuva e não se molhar. Aí usamos o maldito guarda-chuva como proteção. Aquilo é uma arma branca. Os Abrimos e nós lançamos sem perceber, num ringue. Uma luta por um espaço na calçada, além de lutar por espaço que nos cabe, há o do guarda chuva. Semente de todo mal dos dias chuvosos. Bate daqui, gruda dali, puxa fio, fura olho. E fica difícil sobreviver nessas terras do Rio de janeiro de São Sebastião.
Daqui vejo uma gorda, faz altos malabares essa, tentando ajeitar a roupa que já lhe estava toda torta, secar os pés que estavam lameados, a sandália coitada, pobre gorda. Ela se contorcia e segurava a bolsa, umas sacolas e segura seu guarda chuva, minha filha. Não esqueça dele não. Eu olhava e dizia a ela só com o olhar, tem jeito não.
No meio desse clima circense eu achei que pudesse estar exagerando e que a coisa podia não ser tão assim, mas um sujeitinho que vem chegando sacode os pés, o corpo todo na verdade, feito cachorro querendo se secar, e diz: - Chuvinha de viado, essa aí cara!
Disse isso com muito ódio no coração.
Cariocas, tudo bando de palhaços quando debaixo de chuva. Essa gente jovem, que de repente não sabe o que fazer de si quando passa a nuvem negra.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Vagamundeamos


“No momento mais desordenado da nossa juventude nos metíamos apressadamente, sempre de madrugada, sempre sem ter dormido, sempre sem um centavo nos bolsos, em um vagão de terceira classe... Pouco mais ou pouco menos de vinte anos, providos de uma carga valiosa de loucura inconseqüente que queria transbordar, estender-se, estalar”.

"Confesso que vivi"

Plabo Neruda


Fui embora pra minha Pasárgada, fui encontrar amigos, contextos, silêncios, cachaça, porre curtido, toda inconseqüência, a ingenuidade, o sadismo, a ironia. Fui varar noites, ruas, horas adentro. Começar conversas que nunca tem fim. E lá, só lá era possível, não se fazer nada. Não havia relógios em nossa Pasárgada. E a nenhum de nós, o tempo interessava. Nunca faltava café, cigarros, pastinha de alcaparra, cerveja, cachaça, na pior das hipóteses o Oitenta e oito nos olhava atravessado e carcava na gente, mas lá nunca faltou balde e cama pra cair, quando o fígado e as pernas, já não podiam mais. Os deveres, quais eram os deveres? Nem consigo me lembrar. Parece que não havia, mas havia, é só que, não consigo me lembrar. Eis o que eu carrego dela ainda, a facilidade de não cumprir meu dever sem vergonha e sem culpa. Por comodismo descarado.

Uma era casada, outro casado com uma, uma era namorada consciente, a outra era inconsciente, e eu, uma outra. Mas isso nada tinha que ver com outros, nós éramos a medida mais perfeita. Qualquer mendigo dito profeta podia nos casar, com qualquer dinheiro podíamos beber. Com o tempo que fosse podíamos ir a praia, éramos loucos, se o ar estava bom na praia, queríamos embrulhar e trazer pra casa. E as pessoas olhando atônitas, recriminado, são tudo bando de bestas! Até os nossos trabalhos eram pseudotrabalhos. Esse papo de que o trabalho enobrece o homem que nada, bom mesmo era levar essa vida de bacana. Os trampos eram mais desculpa pra essa santa instituição que é a família, nos deixar em paz.

Nossas gargalhadas ecoam, nossas crianças...Correm pelo quintal, sobem nas árvores, se machucavam e no mesmo instante "milhoram". Era Miguel, Marquinho era Mateus, os meninos eram tão maliciosos, mas uma malícia tão pueril. As nossas crianças, não sei que vão ter na cabeça daqui a algum tempo? Afinal o que tínhamos? Insanidade, ânsias, angústias, alegrias, desenganos, tesão e leveza, tanta, tanta que não se susteve.

Lá pelas tantas percebi, talvez tarde que... A maré das circunstâncias mudou. Minha Pasárgada está suspensa sobre o tempo e o espaço, a ela só vou, indo a mim.

E encontrei num canto qualquer dentro de mim. Como que para ninguém ver, feito menina, escondidinha, chorando, morrendo de rir, "chorrindo" sozinha.


Quero voltar pra Pasárgada

Mas Pasárgada não há mais, sussurrou o poeta.


A meus companheiros de Pasárgada,
o meu mais forte abraço.

domingo, 6 de abril de 2008

Aboio urbano



-"Feitiço? Lélio perguntou-

Oxente, pois só de viver

No meio dos outros, a gente,

Cada um está fazendo feitiço

Toda hora...Só que não sabe..."

(João Guimarães Rosa)

Aboio, taí eu nem sabia do que se tratava, mas como estava com tempo sobrando...Verdade mesmo é que sobrando não tava não. É que se a gente deixa de fazer o que deve, aí sobra tempo pra daná e até isso eu faço mais do que devo. Pois então entrei na sala. E logo que eu me assentei, ouço uma voz rouca no meu cangote, não se animem, por que era uma velha desgrenhada que tava berrando atrás de mim pro marido:

- Senta aqui merda! Pra que que vai aí pra frente se tem lugar aqui, ô porra!

O véio tratou de sentar do lado dela, voltou descambando prum lado, depois pro outro e se abundou. E isso teve de acontecer pra eu saber que eu tinha que estar naquela sala bateu tudo direitinho e a vida fez um sentido danado. A maluca da Mariana tinha que estar presente. Ô se tinha. Como se não bastasse, o véio era “avançadinho” ficou dizendo atrocidades durante todo o filme, e a coroa gargalhava em alto e bom som. E todo mundo pra eles:

- Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...

E eles ainda achavam ruim de reclamar e refutavam:

-Xiiiiiiiiiiiiiiiiiii o que, cacete.

Eu incomodada e ao mesmo tempo rindo horrores, afinal que belo exemplo de casal feliz. De um jeito tão particular. Mesmo a felicidade deles representando a infelicidade alheia.

Começa o aboio, um canto estranho e haja chifre pra tudo quanto é lado. E tem vaqueiro filósofo. O vaqueiro que narra o é meio filósofo. Diz coisas intensas com uma rudeza que só o povo do sertão mesmo pra não se ofender. Mas é assim que é. Dizia que quando olha pro céu, pras estrelas. E vê o universo, perde o medo da morte. Segundo o tal cabra vê tudo isso morrendo. E arremata “o universo quando nasceu já tava morrendo”. E é por isso que ele arresolveu Aboiar, por que não pode ter medo da morte que escolhe isso pra fazer a vida. O trem do aboio já começou bom da gota.

Eu, besta estava , besta continuei. Como é que pode, eu no centro do Rio de janeiro, tinha acabado de tomar um café e compra um chocolate pr’assistir o filme, cruzado por ruas barulhentas, sinais que só fecham e “de repente não mais que de repente”, estou ouvindo aquele canto a princípio tão estranho, em contato com uma outra forma de ver a vida, quase que um outro pólo. Aquela gente que fala sem pressa, sem a nossa afobação urbana. O vaqueiro fala, fala e eu penso que acabou, mas daí ele dana a falar novamente e termina muito tempo depois. Outro tempo. O amor com que fazem aquilo, a relação que tem com os bois. Que muita gente, mas bota aí, muita gente mesmo, não consegue ter com outras pessoas.

Bravura, rudeza, silêncio, muito silêncio, hei heiiiiiiiii, o aboio. Pra mim resta uma conclusão. Aquele canto começou a me soar muito bem. Hoje descobri minha faceta bovina.




quinta-feira, 27 de março de 2008

Dança do mascarado

Bons tempos foram aqueles que a gente namorava, melhor, labutava. Nós labutamos tanto, mais tanto, que hoje eu vejo outros namoros e sei, que nós nunca fomos namorados, fomos felizes labutadores. Eu dei trabalho, eu sei. Mas não pense que o senhor ficou atrás. Afinal, quando "fui terminada" com aquela conversinha. Eu achava que tinha sido o fim da trabalheira. Mal sabia meu bem, que a apunhalada final viria três anos mais tarde, num domingo tranqüilo daqueles, te encontrar no cinema com uma mulher. E aquele seu discursinho meu filho, de que precisava se assumir, colocar sua vida em ordem, viver de acordo com a sua opção sexual. Que eu dei total apoio. Importante pra mim, é a lealdade a si mesmo. Oxente se assim que se é, então é desse jeito que tem que viver. Bobagem, tudo bobagem...

Acredite, fiquei até feliz no fim das contas. Mas o que que era aquela mulher? Me diga. Pra mim uma agressão, um vitupério, me reduziu a pó. Tudo o que eu responderia, se me perguntassem o que fomos nós, caiu num abismo, de perder de vista. Sua máscara estava lá, no mesmo lugar, intacta, do jeito que lhe é mais conveniente. E a menina fazendo papel de besta, que um dia, eu fiz também. Papel de besta, por nem desconfiar, coisa que nunca mais me aconteceu depois de você. Nem daquele seu amiguinho, que te ligava de dez em dez minutos tampouco, da sua “indisposição” perto uma menina toda-toda... Feito eu. Hum.

Vou te dizer que naquele domingo, fui possuída por idéias perversas, por muito ódio no coração. Eu queria correr até sua casa, que não era longe dali, pichar o seu muro, pra quando vocês chegassem, os dois, felizinhos, tivessem uma bela surpresa. Daquelas porretas de boa. Queria arranhar sua cara, te matar na unha feito piolho. Queria contar pra ela, ah como eu queria. Mas você não é sujeito besta de deixá-la sozinha perto de mim. Mariana, três anos depois, ainda crente que as pessoas são coerentes, tão romântica, tão idealista. Tão tolinha essa menina.

Agosto de 2007.

terça-feira, 25 de março de 2008

"Me larga, não enche"

Arre! Que raio de lugar é esse que eu vim parar. Isso é uma hostilidade só, meu Deus. Ai, eu quero parar. Mas as coroas, metidas a bacanas, elas não aparentam cansaço. E riem, como riem de mim. Velhas filhas de uma égua manca. O ódio me dá forças. E forço, forço e forço. Peleja pouca é bobagem, pra isso aqui. Eu só queria deixar ser sedentária. Mas não imaginei que seria tão difícil. Nossa...Não acredito, como se não bastasse dançar, chutar, socar o ar(se ainda fosse alguém tava valendo, mas ar?) a gente ainda precisa de peso nas pernas. Como gostam de sofrer.

Olho pro espelho e elas estão felizes da vida. Essas pessoas não sabem o que é felicidade. Não sabem o que é acordar ás três da tarde, comer feijoada, lasanha, pizza, beber cerveja, sem vergonha e sem culpa. Na nova série, a professora lembra a todas que nesse ritmo vão poder até comer ovo de páscoa no domingo. Oxi pensei, mas é claro que vou. Sempre posso comer. Como assim poder? Isso lá é palavra que se use? Pra mim não faz sentido um trem desse. Mas a julgar pelas caras, elas não sabem o que é ter vontade de comer e realizar. Fazem parte dessa geração saúde, que acha bonito fazer sacrifício. Como são cristãs essas mulheres, pobrezinhas.

Como já era de se imaginar, pensando nisso, eu de novo me embaralho nas minhas próprias pernas e me perco na coreografia. Pois é, tem coreografia, meu bem. Logo eu, uma Zé ninguém em coreografias. E aí vem, o que faltava pra eu concluir, que aquilo definitivamente não era lugar pra mim. Que eu era um ser a parte, naquilo tudo.

- Não pensa garotinha, não pensa!

Não pensar? Esse foi o primeiro lugar que eu fui em toda a minha vida, que me fez esse pedido, me pediu pra não pensar. Logo o que eu faço com mais gosto.O que eu não sei parar de fazer. Me pedir pra não pensar, é pedir demais. Lugarzinho mais hostil que esse, não existe. Já não posso mais. E tenho dito.



quarta-feira, 19 de março de 2008

Silenci(ar)


Do mar recebi um abraço violento. E ao dele sair, te encontro de pé, rindo e sem vontade de mergulhar.

Mas não comento, não insisto, sequer sorrio. É tão bom não ter de ser agradável.

Você me dá um cigarro, me joga o fósforo.

E num olhar se descobre a despedida.

Amantes do silêncio somos nós...Todo o resto é indizível, essa noite abdicamos das palavras, e sentimos o que há para além delas.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Mas é carnaval...

É carnaval...Pois é.Mas, meu coração é só melancolia. E não tem por que (pelo menos racionalmente). Acho mesmo que é essa maldita TPM que me deixa chorosa, sensível, enfim, uma mulherzinha. Aflora essas coisas que mulher tem de vez em quando, algumas, de vez em sempre.O dia amanheceu nebuloso, e eu irritadiça. É complicado quando nosso estado de espírito não coincide com o geral, mas fazer o que? Acontece. Mas tratei de mascarar a tristeza, pus uns sambas pra tocar, foi Paulinho da viola, Jovelina, Candeia e a sua Maria Madalena da Portela, "mãe de cinco filhos, mas metida a donzela, que megera", que me fizeram sorrir outra vez. Esse ano eu ia botar meu pé na avenida, tava tudo certo.Ia desfilar no sambódromo.Mas essas coisas mudam. É próprio do universo do samba mesmo, quem não viveu um grande amor, não pode compreender o samba não. É o que dizem. O sofrimento, a peleja faz parte, tô engajada então. E por essa razão entornei todas e mais pouco hoje. E arresolvi que amanhã meus pés vão saciar a vontade de sambar. Vou atrás da alegria. Sozinha ou acompanhada, esse carnaval, essa brincadeira, eu não vou perder não. Até por que carnaval é pra isso mesmo. Esquecer as aflições, esquecer dessa gente medíocre, fazer dessa vida brinquedo de novo, como se fez na infância. É isso que eu vou ser amanhã, criança.